segunda-feira, 2 de abril de 2018

é algo entre estar de luto e nunca ter vivido
um vulto, um ruído, um incômodo.
olhar as lembranças todas embaçadas
o olhar todo embaçado
já não faz sentido nem contar as histórias
nem citar seu nome
uma neblina densa cobriu tudo e por mais que eu saiba que tudo está lá eu não vejo
depois eu nem sei mais se ainda está lá.
aí depois parece que eu estou no céu no meio das nuvens

quem está na neblina não deixa de estar no céu
o céu é um conceito
pra cima do chão tudo é céu

tenho dúvidas sobre o conceito de céu
tenho dúvidas sobre o conceito de morte

devo estar no céu, não sei se morri, sei que isso não é vida.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Nunca gostei de queijo parmesão.
Um dia estava com muita fome, abri a geladeira e só tinha um pedaço de queijo parmesão.
Comi.
Gostei.
Precisou eu só ter a família pra entender o que família significa.
Precisou eu virar mãe pra eu conseguir andar de olhos abertos no escuro.
Tem coisas que só com os pés na beira do precipício.
Quando você cala meu monstro de dentro fala
me assusta, me assombra,
arromba a minha porta,
belisca meu cachorro pra ele latir,
descobre minha filha pra ela chorar.
No meio desse nao dito
tudo que você não diz pra eu não sofrer,
ou por vergonha de ser,
coisas que eu nunca vou saber.
No meio desse não dito tem um silencio bonito
que enche poemas de amor.
A gente não sabe ser médio,
a gente não sabe ouvir baladas no ar condicionado e seguir pro trabalho,
a gente fuma, bebe, sofre,
a gente adoece de não falar
e depois escreve poemas pra doenças.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

um corpo cor de caixa de papelão pulsa
anda pelas ruas com as poucas curvas de uma caixa de papelão
guarda dentro de si muito mais incertezas que qualquer caixa seria capaz de guardar
guarda dentro de si muito mais do que planejava levar
é recipiente.

pode vir chuva e dissolver
pode vir punho que vá rasgar
pode vir tinta pra colorir
nada que uma caixa seja capaz de decidir
é recipiente.

dos anos que tem passado
dos danos e dos danados
tudo que se pode guardar numa caixa de pouco valor.

Segue a velha rotina de fazer das belas árvores chorume
Segue a luta de fertilizar.


quarta-feira, 8 de novembro de 2017

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Uso fruto

Você pra mim é como uma par de galochas.
Como papel toalha, como pires embaixo da xícara.

É aquela coisa que tá ali, parece ser auxiliar auxiliar, aí um dia se mostra fundamental. Que além disso serve pra muito mais coisas do que se imaginou.

Já viu a falta que um par de galochas faz? Já usou galochas na chuva? Galochas são incríveis. Elas protegem os nossos pés, você consegue pisar nas poças d'água sem molhar as meias.
Você não será a mesma pessoa depois das galochas.

Você pra mim é como aquele tipo de objeto que a gente quando usa fica grato por quem inventou.

Já percebeu a capacidade de absorção do papel toalha?
Ele limpa espelho sem deixar pelinhos, limpa as mãos, suga o óleo das coisas que a gente acabou de fritar. Seca lagrimas!
Já secou lágrimas com papel toalha? Até aquelas que saem pelo nariz? Um pedaço dura muito, é bem mais resistente que outros papeis e por não ter pelinhos não faz a gente espirrar.
Você definitivamente não será a mesma pessoa depois do papel toalha.

Tem aquelas coisas que são bonitas, bem feitas e até caras, que a gente tem, mas não usa muito. Aí um dia percebe que dá pra usar de outro jeito e que aquilo que é muito mais que bonito, caro ou bem feito, é fundamental.

Tinha um pires em casa, lindo , ganhei de uma amiga, ou achei numa loja de louças, não lembro bem.
Ele apoiava colher, protegia o sofá de migalhas e essas coisas que pires costumam fazer. Já era ótimo.
Um dia acabou a luz.
Já notou a importância do pires quando acaba a luz?
A gente fica eternamente grata pelo pires.
Ele media a nossa relação com a vela, com a luz, com o caminho.

Sou grata a quem inventou você,
sou grata a quem inventou o papel toalha, o pires e as galochas pra eu poder comparar com você.
Sou grata a humanidade, que mesmo sendo humanidade é capaz de criar coisa assim tão fundamentais.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Ainda no limbo

No céu vazio, em branco
na rua escura e deserta,
em todas as imagens possíveis,


Na solidão de carregar comigo a semente,
no que vai brotar e nem vai ser flor sua

Em cada palpite que eu aguento sozinha,
em cada azia que me amarga a boca,
em todo sonho onde você ainda me sorri.

nas caminhadas rápidas e escondidas,
no medo de alguém me ver,
no medo de você me ver,
na vergonha de não ser mais paisagem nem vestido de maravilha nua.

Na ausência merecida pelo meu desleixo,
no canto onde só sou sumida,
na sua felicidade que só existe se eu não existir.

Morar no entre,
no ventre,
na disposição em refazer toda a vida
e ser refeita por ela.

Como se eu tivesse acordado num sonho, vi que era sonho e não consegui acordar de verdade, aí eu fico presa sem poder me mexer nem falar, tento sair mas o limbo me prende e eu fico angustiada.

Li na internet que se a gente relaxa o sonho começa a tomar a gente, os movimentos voltam e a gente acaba acordando.

Tomara que funcione.