sexta-feira, 10 de novembro de 2017

um corpo cor de caixa de papelão pulsa
anda pelas ruas com as poucas curvas de uma caixa de papelão
guarda dentro de si muito mais incertezas que qualquer caixa seria capaz de guardar
guarda dentro de si muito mais do que planejava levar
é recipiente.

pode vir chuva e dissolver
pode vir punho que vá rasgar
pode vir tinta pra colorir
nada que uma caixa seja capaz de decidir
é recipiente.

dos anos que tem passado
dos danos e dos danados
tudo que se pode guardar numa caixa de pouco valor.

Segue a velha rotina de fazer das belas árvores chorume
Segue a luta de fertilizar.


quarta-feira, 8 de novembro de 2017

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Vivo os outros
os romances dos outros
os pesares dos outros e os amores,
sinto cada coisa dos outros.

eu vivo as riadas dos outros
eu ouço as musicas dos casais emocionada
gozo nos sexos que ele gozam e sinto pela falta de lubrificação como se fosse em mim.

eu choro as lágrimas dos términos, eu sofro com as novas fotos felizes em que eles estão com um novo amor
eu sinto os doces e salgados dos jantares e sobremesas,
eu gosto das fotos em que os outros saem bem e reconheço que as outras que os amigos tiram nunca fazem jus.

Eu vivo tudo o que eu vejo e o que eu não vejo eu invento.
Roteiro inteiros.
Todos verdade.

Muito mais possibilidades de alegrias,
ou
Uma dor a menos aqui a cada dor a mais por lá.
 ...

Talvez seja isso.



https://www.youtube.com/watch?v=gw9fKuymA0I

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Uso fruto

Você pra mim é como uma par de galochas.
Como papel toalha, como pires embaixo da xícara.

É aquela coisa que tá ali e você acaba achando que é auxiliar. Aí um dia você percebe que é fundamental. Que além disso serve pra muito mais coisas do que você tinha imaginado.
Depois você cria o costume e quando percebe já gosta tanto que não é mais costume.

Já viu a falta que um par de galochas faz? Já usou galochas na chuva? Galochas são incríveis. Você consegue pisar nas poças d'água sem molhar as meias.Você não será a mesma pessoa depois das galochas.

Você pra mim é como aquele tipo de objeto que a gente quando usa fica grato por quem inventou.

Já percebeu a capacidade de absorção do papel toalha?
Ele limpa até espelho sem deixar pelinhos, limpa as mãos, suga o óleo das coisas que a gente acabou de fritar. Seca lagrimas!
Já secou lágrimas com papel toalha? Até aquelas que saem pelo nariz? Um pedaço dura muito, é bem mais resistente que outros papeis e por não ter pelinhos não faz a gente espirrar. Você definitivamente não será a mesma pessoa depois do papel toalha.

Tem aquelas coisas que são bonitas, bem feitas e até caras, que a gente tem, mas fica meio assim por não usar sempre. Aí um dia você percebe que dá pra usar de outro jeito e que aquilo que é muito mais que bonito, caro ou bem feito.

Tinha um pires em casa, lindo , ganhei de uma amiga, ou achei numa loja de louças, não lembro bem, lindo.
Ele apoiava a colher, protegia a xícara, essas coisas que pires costumam fazer. Já era ótimo, dava pra comer em cima dele sem sujar o sofá com migalhas.
Um dia acabou a luz.
Já percebeu a importância quando acaba a luz?
A gente fica eternamente grata pelo pires.
Ele media a nossa relação com a vela, com o caminho, com a luz.

Sou grata a quem te inventou, sou grata a quem inventou o papel toalha, o pires e as galochas pra eu poder comparar com você.
Sou grata a humanidade, que mesmo sendo humanidade é capaz de criar coisa assim tão fundamentais.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Ainda no limbo

No céu vazio, em branco
na rua escura e deserta,
em todas as imagens possíveis,


Na solidão de carregar comigo a semente,
no que vai brotar e nem vai ser flor sua

Em cada palpite que eu aguento sozinha,
em cada azia que me amarga a boca,
em todo sonho onde você ainda me sorri.

nas caminhadas rápidas e escondidas,
no medo de alguém me ver,
no medo de você me ver,
na vergonha de não ser mais paisagem nem vestido de maravilha nua.

Na ausência merecida pelo meu desleixo,
no canto onde só sou sumida,
na sua felicidade que só existe se eu não existir.

Nem eu, nem ela.

Morar no entre,
no ventre,
na disposição em refazer toda a vida
e ser refeita por ela.

Como se eu tivesse acordado num sonho, vi que era sonho e não consegui acordar de verdade, aí eu fico presa sem poder me mexer nem falar, tento sair mas o limbo me prende e eu fico angustiada.

Li na internet que se a gente relaxa o sonho começa a tomar a gente, os movimentos voltam e a gente acaba acordando.

Tomara que funcione.


sexta-feira, 21 de abril de 2017

Dia bucólico

Nesses dias em que todo mundo fala que tá feio,
nesse frio com garoa que a gente nem sai de casa
agora eu entendo a aflição.
Foi ler parte de uma musica e veio
me peguei lembrando do nosso tempo em brasa,
doce e triste reflexão .
Mais vulgar do que café com leite,
mais comum do que pente de plástico
eu me enrolo nas antigas mantas cheirosas de amaciante caro que não para de cheirar nem depois de meses de pipoca e amor.
Cai uma lágrima piegas, que ouve uma balada batida, daquelas que nenhum cantor sertanejo se presta a cantar mais.
Fora esse contexto histórico, todo o resto me dá vergonha,
meu suspiro comprido na fronha e essa náusea de abstinência.
Eu olho da janela pra fora e é como se nem pro vento eu fosse real resistência.

quinta-feira, 2 de março de 2017

Pra quê?

Pra sentir calor de gente
pra me passar repelente
pra me fazer ver além
pra me fazer ser do bem
pra me deixar animada
ou com sono
ou com vontade de chegar logo em casa
eu preciso tanto.
pra me contar como foi o dia
pra me tirar da cama com qualquer programa
pra me fazer não sair da cama
por dias
pra me irritar com pés molhados depois do banho
pra me ensinar sobre o perdão e o amor que supera
pra me fazer rir
me fazer chorar
me fazer viver
me fazer falar
o que eu nunca tive coragem.
pra me dizer o que eu ninguém nunca vai ter coragem
pro meu bem
pro seu bem
pro resto da nossa vida.

Para todas as outras coisas existe Master Card.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Pra quem pode.

ter tempo pra chorar por mim
ter tempo de chorar por nós
ter tempo pra ficar afim

levar as coisas leves
deixar o curso pro mar
não precisar do sim
não precisar deixar

estar dentro de mim
saber por onde andar
pagar as minhas contas
com dinheiro que sobrar

Amar sem medida
jogar tudo pro alto
voltar pra nossa casa
refazer a nossa cama
a nossa sina
a nossa vida com as mil cores de terra que tinham aquelas falésias da praia de Pipa....