quinta-feira, 15 de outubro de 2015

No ar

Caem as folhas,
caem as pétalas,
caem as certezas e lágrimas.

Neblina de tarde de inverno,
bruma quieta,
sina modesta,
imenso caos interno.

Na linha torta onde se escreve o caminho,
na planta morta que vejo no vasinho,
Na cantora que nem me conhece e me dita.

Em tudo eu.
Em tudo só.
Em tudo uma possibilidade de um novo passo.

E sempre a estranha sensação de quase flutuar.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Céu

Já me senti melhor que você
por não ter cabelo crespo
Já me senti feliz por não ser
descendente de um povo preto

Só hoje, mais velha é que eu enxergo
Eu era muito racista, não nego

Uma história coberta de hipocrisia
Filha de nordestino praticando xenofobia

Não queria ser Salgueiro,
Não queria o nome de pobre dos meus pais,
Não queria um bairro negreiro, uma cabeça chata,
meus ancestrais

Eu não rinha raízes, não conhecia meu povo,
Daqui tiraram tudo,
toda a força, a cara, o ouro.

Nunca pintei a cara, nunca pulei no rio, nunca bati tambor.
Nem nativa, nem preta, um projeto de colonizador.

De onde tirar orgulho? Como enxergar
meu valor, minha identidade?
Como ver como irmão os pretos e pardos da minha idade?

Eu tinha medo da violência, eu assistia Datena,
Eu acreditava em tudo que vinha daquela antena

Lembro que eu era pequena e
Chocada descobri
Que moro na zona leste, a parte mais violenta daqui.

Se não fosse uns e outros enriquecerem minha caminhada
Se não fosse as companheiras, exemplos dentro e fora da sala de aula
Se não fosse lugares como esse
de onde hoje eu falo
Eu estaria cega, meu corpo seria um fardo

Sinto por muitos de nós que ficaram pelo caminho
Sinto que o movimento pode ser ser um ninho

Que te dá proteção e te mostra
que o voo pode ser alto
que você é capaz de voar,
que é sua a praça, a escola, o asfalto

O Estado na intensão de por a gente numa gaiola
rouba nossos sonhos, auto-estima, nos viola

Eu pego essa viola e declamo meu cordel
Bato tambor, sambo na roda e faço da quebrada meu céu.