quinta-feira, 30 de julho de 2015

Ser mulher

Andando na plataforma
de maneira desconfiada
com um olho nas minhas costas
com o outro na cara fechada
me sentindo uma gladiadora
na cova com muitos leões
uma vida tão reveladora
me ensinou várias lições

Hoje eu não tenho mais medo
não me assusta a testosterona
eu já fui pavor e segredo
hoje deixo vir tudo a tona

Eu ando nessas ruas e becos
paço pontes e enfrento vagões
olho firme e não esmoreço
olho feio e julgo os machões

Tenho todo um discurso pronto
tudo o que eu devia falar
se aparece na frente um desses
querendo desrespeitar

Isso é um triste produto
de uma história muito antiga
um mundo que cria vilãs
desunidas e falsas amigas

Todas tão reclusas e santas
todas tão sozinhas feridas
dividindo o mesmo chão
indagando os porquês da vida

Ser mulher, ser luta e ser dor,
ser assim  desprotegida
Eu não sei bater, não sei por
um soco na cara inimiga

Mas sei tão bem esconder,
sei fingir e fechar as pernas
Eu sei ler e escrever
mil mentiras na minha testa

Sei gemer sem gozar ou querer
sei sofrer e me orgulhar
Me convenço que a culpa sou eu
que sou boa se eu pena

Tudo isso eu deixo pra trás
hoje eu é quem faz o caminho
não se a treva, meu caro rapaz
a me zuar se tiver sozinho

Assim como a grande Walesca
eu sou tiro, porrada e sou bomba
se comigo, com alguma parceira
eu me aprumo e ponho na conta

Do machismo zuado, escroto
que já fez tanto mal pra mim.
Hoje eu durmo pronta pra guerra,
eu te juro, eu não era assim.

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