segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Marfim

Um cigarro molhado contava como estavam as coisas,
nada muito certo, só um monte de suposições,
lembrava da tela cheia de notícias,
na perna sentia as carícias da chuva e das gotas de sal.

Já sucumbira a quase todos os vícios, 
carne, tabaco, açúcar, mentiras, solidão.
Pensou em pousar em hospícios,
Na maré cheia de ingratidão.

Juntou uns versos, umas tintas e umas dores,
pensou em todos seus confusos amores,
criou uma coroa de finas flores
para enfeitar o fim.

Não ia mais viver aquilo,
não tinha mais sentido isso,
ia viver de outro jeito 
já não cabia ser assim.

Se jogou no verso e na prosa,
cheirou aquela antiga rosa,
dançou, pintou, ditou sedosa,
na arte renasceu Marfim.


segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Novamente

Novamente.
Outra vez.
Cíclico.
Sempre.
Sorte.
Sina.
Mina.
Nós.


O que ela viu e gostou,
o que você sentiu e desgarrou,
o que estava jorrando e estancou,
agora vejo onde estou.

Tentando dominar os medos e desejos
tentou escrever suas noites tristes num papel de pão,
quis fingir que sofria pra não ter de sofrer
em meio a lampejos de futuros e passados festejos
Não saiu diferente da maldição.

Édipo tentou fugir.
Não rolou.

Em cada passo um pouco de tudo isso.

Novamente.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Nós e os nós.

Laços, nós, cegos, nós.

Uma chuva forte que a gente vê da varanda.
Melhor,
Uma chuva forte que a gente vê passar por cima da gente,
vê chegar.
Vê molhar.
Vê indo embora.

Mais um clichê,
mais de você,
muito além do que se vê.

Gotas pra molhar o chão fértil,
gotas pra fazer crescer flor,
gotas que não são só de chuva,
diversas gotas de amor.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Na ida e na vinda

Não vai crescer
não vai dominar
vai se transformar em admiração
vai ser lindo, linda.

Aí sim vai ser grande
vai me fazer grande
vai ser bela canção
vai ser na ida e na vinda.

Leve, um leve bom.

leve, deixe, se quiser, se puder, se for linda.



terça-feira, 3 de novembro de 2015

Pequena

parecia forte
decidida
certa de tudo na vida

parecia taquara
que arqueia mas não apara
logo ela que dizia
que toda ferida sara

parecia que ia ser fácil
que não ia fisgar
que o sentimento de posse
não ia nos alcançar


parecia que isso seria suficiente
mas a gente combinou de não nivelar por baixo
de que adianta parecer ser grande
se tão pequena nos teus braços.

diante de mais um desengano só consegue-se chegar a conclusão de que de nada se pode ter certeza no meio da Neblina.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

No ar

Caem as folhas,
caem as pétalas,
caem as certezas e lágrimas.

Neblina de tarde de inverno,
bruma quieta,
sina modesta,
imenso caos interno.

Na linha torta onde se escreve o caminho,
na planta morta que vejo no vasinho,
Na cantora que nem me conhece e me dita.

Em tudo eu.
Em tudo só.
Em tudo uma possibilidade de um novo passo.

E sempre a estranha sensação de quase flutuar.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Céu

Já me senti melhor que você
por não ter cabelo crespo
Já me senti feliz por não ser
descendente de um povo preto

Só hoje, mais velha é que eu enxergo
Eu era muito racista, não nego

Uma história coberta de hipocrisia
Filha de nordestino praticando xenofobia

Não queria ser Salgueiro,
Não queria o nome de pobre dos meus pais,
Não queria um bairro negreiro, uma cabeça chata,
meus ancestrais

Eu não rinha raízes, não conhecia meu povo,
Daqui tiraram tudo,
toda a força, a cara, o ouro.

Nunca pintei a cara, nunca pulei no rio, nunca bati tambor.
Nem nativa, nem preta, um projeto de colonizador.

De onde tirar orgulho? Como enxergar
meu valor, minha identidade?
Como ver como irmão os pretos e pardos da minha idade?

Eu tinha medo da violência, eu assistia Datena,
Eu acreditava em tudo que vinha daquela antena

Lembro que eu era pequena e
Chocada descobri
Que moro na zona leste, a parte mais violenta daqui.

Se não fosse uns e outros enriquecerem minha caminhada
Se não fosse as companheiras, exemplos dentro e fora da sala de aula
Se não fosse lugares como esse
de onde hoje eu falo
Eu estaria cega, meu corpo seria um fardo

Sinto por muitos de nós que ficaram pelo caminho
Sinto que o movimento pode ser ser um ninho

Que te dá proteção e te mostra
que o voo pode ser alto
que você é capaz de voar,
que é sua a praça, a escola, o asfalto

O Estado na intensão de por a gente numa gaiola
rouba nossos sonhos, auto-estima, nos viola

Eu pego essa viola e declamo meu cordel
Bato tambor, sambo na roda e faço da quebrada meu céu.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Primavera, peito e cimento

O vidro não te deixa dormir,
As pessoas falam alto,
As mesmas musicas gastas e opacas me falam de amores de cais.

Do pouco entendimento me vêm a mente cenas imortais.

Com a força da natureza, com um brilho de pura beleza,
As cores, e flores e tons colorem essa cidade.

Na vontade de vossa alteza, no calor e no frio põe a mesa
inspiração que me vem de verdade.

No canteiro do peito botões e folhas verdes,
vestida de flores vou.

Num olhar mais atento
nota-se que aqui
primavera já chegou...

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Duas flores

Em tuas mãos fui deixada,
em vagos olhares descrita,
um norte visualiza
 sua cor favorita.

De perto vi outra flor
sem cheiro e sem vida verde
matéria fria, inverdade
verdadeira fonte de sede

Eu sim e ela jamais,
eu branca e ela vermelha,
eu vida e ela intensão
de se fazer verdadeira.

Eu presenciei o momento,
eu vi que não era por mal,
eu sei que o fundo do peito
é canteiro de flor no quintal.


quinta-feira, 30 de julho de 2015

Mel, xi...

De quanto tempo se precisa para apagar uma estrela?
Ou derrubar verdades de uma vida inteira...

Quanto tempo se gasta fazendo um buraco 
num peito, um leito para ser enterrado?

Se aceitas esse céu que pensas merecer
estraçalha um sublime e sincero querer

Por que tanto gosto amargo?



    Para
                           


                        Pensa



                                                  Pulsa




                                                                                 Pula.

Ser mulher

Andando na plataforma
de maneira desconfiada
com um olho nas minhas costas
com o outro na cara fechada
me sentindo uma gladiadora
na cova com muitos leões
uma vida tão reveladora
me ensinou várias lições

Hoje eu não tenho mais medo
não me assusta a testosterona
eu já fui pavor e segredo
hoje deixo vir tudo a tona

Eu ando nessas ruas e becos
paço pontes e enfrento vagões
olho firme e não esmoreço
olho feio e julgo os machões

Tenho todo um discurso pronto
tudo o que eu devia falar
se aparece na frente um desses
querendo desrespeitar

Isso é um triste produto
de uma história muito antiga
um mundo que cria vilãs
desunidas e falsas amigas

Todas tão reclusas e santas
todas tão sozinhas feridas
dividindo o mesmo chão
indagando os porquês da vida

Ser mulher, ser luta e ser dor,
ser assim  desprotegida
Eu não sei bater, não sei por
um soco na cara inimiga

Mas sei tão bem esconder,
sei fingir e fechar as pernas
Eu sei ler e escrever
mil mentiras na minha testa

Sei gemer sem gozar ou querer
sei sofrer e me orgulhar
Me convenço que a culpa sou eu
que sou boa se eu pena

Tudo isso eu deixo pra trás
hoje eu é quem faz o caminho
não se a treva, meu caro rapaz
a me zuar se tiver sozinho

Assim como a grande Walesca
eu sou tiro, porrada e sou bomba
se comigo, com alguma parceira
eu me aprumo e ponho na conta

Do machismo zuado, escroto
que já fez tanto mal pra mim.
Hoje eu durmo pronta pra guerra,
eu te juro, eu não era assim.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Posse

Todas as palavras,
todos os olhares e os pensamentos,
todas as risadas e espirros ,
tudo.
As senhas, as mensagens, as vontades e ressentimentos.

Sempre.

Uma vida.

Enche os olhos e esvazia o peito.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Mundos imaginários.

Talvez um dia o peito seja grande o bastante para guardar esse mar ,
talvez a água fique doce ,
talvez o vento sopre pro lado que não faz o cabelo voar no rosto e entrar no olho e na boca e ...
talvez seja só na nossa cabeça,
talvez não,
talvez não valha a pena,
não faça diferença,
não traga nenhum valor.

Cegueira de entrelinhas imaginárias,
era disso que ela precisava, 
precisava ser avulsa e obtusa,
ser justa e coerente.
Era pedir demais.
Foi até o ultimo andar pela escada de incêndio e disse pro vento:
-Sopra essa porra pro lado que você quiser! Mas para de soprar no meu peito! Por favor...

Ele soprou em tudo quanto foi lugar.
Ela percebeu que a na vida a gente é catavento, só não gira quando não é.



sábado, 23 de maio de 2015

Irreconhecível

Cantareiras transbordam
um tom mexicano quase cômico
vira do avesso a dor de dente.

Um dia longo não é o bastante,
uma festa longa não é o bastante,
uma noite mal dormida não é o bastante.

Tudo é miseravelmente ridículo e justo.
E tudo que amarra e cega
vira pó num click.

O mundo não é só meu.
A vida é foda pra todo mundo.
Como soa bem...

sábado, 2 de maio de 2015

Nada

Quem era?
onde?
porque?
vem?
quantas?
hoje?
posso?
quer?
bem?
eu?
nós?
ainda?
Sim pra maioria das coisas...

Drama

Eu sei de tudo isso
Eu não acho saldável também,
se eu pudesse eu mudava.

Infinitas vezes meu auto desdém afirmava.

Uma cratera no peito
um choque profundo
tudo que se tem direito
de doer no mundo.


Completa, cava fundo, retorce e trás a tona todo o féu.

Esperando a noite passar,
e os dias,
e as dores,
e os pesos,
e só ficar pensando em como seria se não fosse.

Positivamente a intuição  faz resenha sobre os medos.
Nem tão positivamente assim.
INSEGURANÇA.

Como água na mão que só quer ir pro chão e insiste em passar pelos dedos.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Sendo

Como uma placa que indica o caminho errado, como um pote de sorvete cheio de feijão na geladeira, como quando acabam de comer alguma coisa perto da pia em que você lava louças e assim que você termina te entregam um prato, como quando você percebe que corrigiu o gabarito errado e na verdade você não acertou, como quando você vai fazer careta pra um bebê fofo e ele chora, como quando você chega de viagem e percebe que tem que arrumar as malas, como quando você descobre algo ruim sobre seus pais, como quando você descobre algo ruim sobre você.
Como se fosse mentira, mas é verdade. Como a reprise de "A lagoa azul" na seção da tarde.
Ser, estar, viver algo assim. Tipo isso.
Dava pra dormir sem.

sexta-feira, 13 de março de 2015

Dissimulada

Dentro do quarto. Dois olhos. Duas Mão. Muitas lembranças e uma carta. Maldita e cínica. Quem depois de tudo tem coragem de dizer tudo em tom de poesia? Ninguém merece algo desse tipo.
Independente disso os olhos pularam para carta, que por mais tudo isso fosse, era a ligação com tudo aquilo, era a única coisa que por uma maldição se podia querer. Os olhos leram.

Eu não sei ser uma boa companheira, mas isso não significa que eu não te ame.
Não sei amar fácil, só sei complicar.
O que ouvi foi do poeta, não do orixá,
Se dói tanto quanto é bom esse é o melhor amor do mundo.
Queria te dar todo amor do mundo, ou ao menos o que houvesse em mim,tenho coisas que não deverias ver, ter, sentir.
Sou tão má quanto apaixonada, ruindade inconsciente, coisa que deve ser guardada, seu amor de pandora não entende.
Fui trilhando em paralelo meu afago e meu sufoco, não é justo que eu te ponha nessa história como um louco.
Hoje sou clichê, sou memória, sou sozinha, só uso uma parte da minha linha.
Eu não aguento você longe, não consigo sem sua saudade, eu não tenho argumentos, só estou triste e queria você comigo, sua amizade, seu toque, nossa história. Eu sei de tudo, nem mereço, mas quero.
Tudo pode até passar passar, pode até se tornar normal pra mim ver-te de longe, eu posso ser feliz de outro jeito, mas não vai ser do nosso, desculpa se estraguei as coisas.
Eu posso ser seu pior inimigo.

Eles já tinham lido inúmeras vezes, eles já estavam marejados, eles só era a saída de todo um furacão que não sabia pra onde transbordar.

Tudo foi ficando embaçado, os sons e cores se perdendo e ela acordou.

Sentou na cama, olhou em volta, certificou-se de que não entregara a carta. Foi até sua mesa, amassou o papel, o jogou no cesto e voltou para a cama.
Não se entrega um poema a ninguém para se falar de dor.É realmente muito cínico.